Sociedade Cashless – O denominador comum entre Bitcoin, a Libra do Facebook e o Gram do Telegram

Por Tatiana Revoredo | CSO @ The Global Strategy

Em 2008, o paper “Bitcoin: a Peer to Peer Eletronic Cash System” era apresentado ao mundo como um novo sistema de troca de valores, inteiramente distribuído, afastando a necessidade de um ente centralizador e validador das transações, solucionando o problema do gasto duplo no mundo digital.

O Telegram levantou em 2018, pelo menos US $ 1,7 bilhão no lançamento do GRAM, o token associado a seu ambicioso projeto de blockchain, o Telegram Open Network, ou TON. O aguardado blockchain TON, após atrasos significativos, finalmente lançou a sua mainnet em 31 de outubro de 2019.

Também em 2019, um anúncio feito pela maior plataforma de mídia social do mundo imediatamente chamou a atenção de governos e de um enorme público para o projeto Libra, que pretende introduzir uma nova “moeda” global com a tecnologia blockchain.

Independente do que você pensa sobre criptomoedas, ITO (Initial  Token Offerings) ou do Facebook, uma coisa é certa: todas as situações narradas acima possuem o denominador comum de uma “sociedade cashless”.

Há muito que a sociedade está se afastando rapidamente do dinheiro físico, rumo ao “dinheiro digital”.

Segundo recente estudo sobre hábitos de pagamento realizado na Suécia, a demanda por dinheiro caiu mais de 50% na última década, com um número crescente de pessoas confiando em meios digitais de pagamento.

Mais da metade de todas as agências bancárias não lidam mais com dinheiro. Sete em cada dez consumidores dizem que compram sem dinheiro “físico”, enquanto metade de todos os comerciantes esperam deixar de aceitar dinheiro até 2025 (Arvidsson, Miclas, Jonas Hedman, and Bjöm Segendorf. 2018. In: Research Report, Swidish Retail and Wholesale Council).

Soluções digitais para transferência de valores já existem há algum tempo.

A novidade, no entanto, é que as formas de transacionar valor estão se afastando das formas tradicionais. Cada vez mais e mais pessoas têm se utilizado do celular, de aplicativos e criptomoedas, ao em vez de cartões de crédito.

Nesse passo, qual será o impacto se essas novas soluções digitais para transferência de valor se tornarem dominantes e se popularizarem?

Qual será o papel dos bancos centrais, hoje responsáveis pela oferta monetária, se uma criptomoeda como Bitcoin (garantida por algoritmos criptográficos executados em uma blockchain), um token digital como o Gram, ou ainda, uma stablecoin emitida por um ente privado como a Libra Coin se tornarem globais?

Indo mais além, os bancos centrais são necessários como emissores de um meio de pagamento em um mercado de pagamentos digitais?

Ademais, se a prerrogativa do Estado de emitir dinheiro for estendida às empresas, como defendido pelo liberal Friedrich August von Hayek, de modo a permitir que as pessoas escolham suas próprias moedas (rompendo o monopólio estatal), como garantir o cumprimento dos requisitos básicos exigidos por um mercado de pagamento (como serviços amplamente disponíveis, infraestrutura segura, protegida e eficiente, com o menor custo possível)?

Vivenciamos um tempo em que o centro dos debates já não é mais se nos tornaremos uma sociedade onde notas e moedas físicas deixarão de existir.

Agora, a questão fundamental que o mundo todo enfrenta é: quando finalmente nos tornarmos uma “sociedade cashless”, deixaremos de ter acesso a meios de pagamento garantidos pelo Estado, e corporações privadas como Facebook e Telegram controlarão em maior medida a acessibilidade, os desenvolvimentos tecnológicos, os preços de bens e os métodos de pagamentos disponíveis?

Ou teremos uma criptomoeda global cumprindo as três funções essenciais do dinheiro (meio de pagamento, unidade de conta e reserva de valor)?

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Tatiana Revoredo | CSO na The Global Strategy.

Membro fundadora da Oxford Blockchain Foundation. Especialista em blockchain pelo MIT e pela University of Oxford. Especialista em Cyber Risk Mitigation pela Harvard University. Autora do livro Blockchain: Tudo o que Você Precisa Saber e coautora do livro Criptomoedas no Cenário Internacional

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